quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

o sabor do lugar

voltando da praia hoje, tomei um guaraná natural numa casa de sucos qualquer.  foi doce demais, mas bem mais saboroso do que normal, o que me lembrou a sensação de beber guaraná 8 ou 9 anos atrás, nas minhas primeiras visitas ao brasil. naquela época, o sabor ainda era uma novidade para mim, algo exótico que me lembrou o fato de eu estar muito longe da minha casa.  a sensação não era apenas de me refrescar, e sim de participar em um tipo de comunhão, de sentir o lugar onde eu estava através de sabor:  de beber o brasil.  
  
nas minhas primeiras visitas ao brasil, apaixonado com tantos sabores e possibilidades diferentes, enchi a minha cara com tudo que não era conhecido:  sonhos de doce de leite e pasteis de palmito nas padarias, queijo coalho e acarajé nas ruas, guaraná e mate em qualquer lugar e a qualquer hora.  cada vez que eu saí de casa era uma oportunidade de saborear esse lugar novo e encantador, de cheirar, experimentar, e digerir o país.  meu ritual, logo na chegada pro galeão, foi sentar em um lanchonete do aeroporto com uma lata de guaraná antárctica, engolindo uma sensação do local enquanto meus olhos absorveram as diferentes cores de roupa e da pele, e meus ouvidos se re-acostumavam a um idioma mais ou menos conhecido, mais muito longe de ser meu.  durante o resto da visita, meus sentidos ficaram sempre alertas,  e eu me conduzi sempre em busca de novas experiências sensoriais.  foi só na minha quarta visita ao país, quando entrei com um visto de dois anos, que parei de comer como um turista, sabendo que os sonhos da padaria na esquina não iriam para lugar nenhum, e que o sabor deles seria sempre disponível.


brasilidade à venda em nova iorque:  açaí e "amor da selva" (água de côco com banana!)



hoje em dia, o guaraná natural é apenas mais uma besteira que eu bebo na praia, ou em qualquer lugar onde não vende água com gás.  os sonhos servem principalmente para cafés de manhã ocasionais, quando saio de casa muito cedo ou sinto uma vontade incontrolável para doce de leite.  nas minhas visitas recentes aos estados unidos, porém, ganhei a tendência de comer descontroladamente tudo o que não tem de bom e barato no rio:  comida indiana, chinesa, mexicana, tailandesa.  tendo a ganhar uns 250 gramas por dia quando estou nos estates, fenômeno que eu chamo de “first world 15” (as 15 libras do primeiro mundo, referente ao “freshman 15,” excesso de peso que os calouros estadunidenses supostamente ganham quando saiam da casa dos pais).  e não me limito a alta culinária:  a última vez que cheguei em nova iorque, saí do apartamento onde estava ficando, parei na primeira banca de jornal e comprei um pacote de cool ranch doritos, uma besteirinha que eu amava na 5a série, mas que não compro desde o colegial.  (pode ser até que tenha esse sabor de doritos no brasil; sinceramente não sei, pois geralmente sou um pouco mais natureba).  naquela hora, porém, era a única coisa que quis comer:  fiquei parado numa esquina de chinatown, comendo meu doritos, tomando um ginger ale (refrigerante de gengibre), e engolindo a sensação de estar logo ali.  não me importava tanto se era de fato agradável – o que eu queria foi saborear os estados unidos, em toda sua gloriosa artificialidade.

4 comentários:

Sue VanHattum disse...

Pra mim, era pudim, picole de coco, e queijadinhas. Ou, saindo das doces, nhoque e feijoada.

Ahh, saudades...

gringo que fala disse...

pode crer! sendo vegetariano, minhas opções são um pouco mais restritos...mas adoro um feijão bem-feito.

Sue VanHattum disse...

Vegan? Or come coisa com leche?

gringo que fala disse...

passei alguns anos como vegan, mas o brasil me ajudou a desistir. fiquei muito viciado em brigadeiro, e leite condensado em geral.