passei essa semana traduzindo e participando em uma oficina de viewpoints e suzuki (técnicas de teatro contemporâneo), o que tem sido muito bom para soltar minhas instintas, energias, e dúvidas criativas. penso cada vez mais em traducão como a base de práticas artísticas. donnie, o professor dessa oficina e um grande ator lá da minha terra, tem falado bastante essa semana em atuação como negociação: entre um ator e outros atores, entre atores e espaço, tempo, e plateia. me encontro dentro de um processo pessoal de negociar entre culturas e entre línguas e linguagens. obviamente, lido com isso cada vez que eu traduzo, mas fica bastante óbvio nas minhas performances, e mesmo nesse blog...
faz tempo que eu gasto mais energia tentando explicar os estados para os brasileiros do que explicar brasil para os gringos. talvez seja porque é sempre mais fácil descrever deficiências do que apontar o que faz a gente se apaixonar: posso muito facilmente dar palavras a tudo na sociedade norte-americana que me faz sentir revoltado, mas por mais que consigo falar (durante horas) sobre meu amor para o brasil, não sei apontar um único motivo que explica o porque de eu estar aqui.
"sticker art" em nova iorque: "fascismo norte-americano: melhor qualidade"
eu gostaria de saber explicar o que está acontecendo atualmente na sociedade norte-americana depois do atentado da semana passada (feito, mais uma vez, por um branco "nativo," o grupo demográfico que mais fez atentado na história dos estates). o que me impede não é a distância geográfica de eu estar no brasil, e sim a distância cultural que me atrapalharia mesmo se eu fosse lá. ou seja, há uma divisão enorme entre os lugares onde eu costumo andar lá (principalmente nova iorque e são francisco) e os interiores. não se trata apenas de opiniões e valores diferentes, e sim de não saber realmente quais são as opiniões e valores do "outro lado". por exemplo, eu sei que metade dos eleitores votou em bush, mas as únicas babacas que eu conheço que fizeram isso são um tio milionário escroto meu, e um jogador de futebol americano que morava comigo durante um tenso primeiro ano da faculdade.
dizem que nos estates tem 85 armas para cada 100 pessoas, mas novamente, não conheço ninguém que tem arma em casa. imagino também que meu tio e o futeboleiro não conhecem muitos vegetarianos. imagino que talvez tenham ouvido do foucault e deleuze, mas provavelmente não conhecem ninguém que guarda os livros deles em casa. ou seja, não vejo uma negociação na minha própria relação com os estados unidos. então, como é que eu conseguiria reconhecê-lo na relação de mais alguém? e como é que eu faria para promovê-lo?
penso cada vez mais na tradução como uma performance, e vice versa, não necessariamente para explicar tudo, mas para abrir a possibilidade de outros sentidos, outras experiências, e outros contatos. isso, é claro, sem querer abandonar meu foucault, e sem começar a votar em bush. mas quero, sim, usar a negociação para me soltar...

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